O que começou com a aproximação entre assistentes sociais de RPPS da Grande São Paulo se transformou no FASRPPS, uma rede que hoje reúne 88 profissionais de diferentes regiões do país para trocar experiências, discutir desafios comuns e construir novas referências para a atuação nos Regimes Próprios
Em 2019, assistentes sociais que atuavam em Regimes Próprios de Previdência Social começaram a fazer uma pergunta aparentemente simples: como outros institutos estavam lidando com desafios semelhantes aos seus?
Naquele momento, havia poucas referências específicas sobre a atuação do Serviço Social nos RPPS. Além disso, cada instituto tinha sua própria estrutura, atribuições e formas de organizar o trabalho. Foi quando a equipe de Serviço Social do Instituto de Previdência Social dos Servidores Municipais de Barueri (IPRESB) começou a procurar profissionais de outros municípios da Região Metropolitana de São Paulo.
“O fórum surgiu da necessidade de aproximação entre as(os) assistentes sociais que atuavam nos Regimes Próprios, especialmente para trocar experiências, conhecer outras práticas profissionais e ampliar as referências sobre a atuação nesse campo”, contam Carla de Matos Leorne, Dáphane Santos Coutinho e Sueli Santos Amorim, assistentes sociais do IPRESB e integrantes do Fórum.
O primeiro passo foi um grupo de WhatsApp. Ainda naquele ano, em dezembro, Barueri recebeu o primeiro encontro presencial. A articulação cresceu, chegou a outros municípios, ultrapassou as fronteiras de São Paulo e, em setembro de 2024, ganhou uma organização mais estruturada com a criação do Fórum de Assistentes Sociais dos Regimes Próprios de Previdência Social (FASRPPS).
Hoje, o fórum reúne 88 assistentes sociais de diferentes regiões do país. Os encontros acontecem de forma presencial e on-line, as pautas partem das demandas apresentadas pelos próprios integrantes e especialistas também são convidados para aprofundar discussões. Paralelamente, o grupo mantém um canal permanente para circulação de legislações, materiais técnicos, experiências e dúvidas do cotidiano.
Foi nesse contato mais frequente que uma percepção começou a se repetir.
“Essa troca cotidiana é muito importante porque permite perceber que uma dificuldade que parece individual, muitas vezes, é uma questão presente em diversos RPPS e pode ser pensada coletivamente”, explicam. E há muitas questões em comum.
Em alguns institutos, a atuação do Serviço Social já está estruturada. Em outros, ainda existem discussões sobre atribuições, competências, autonomia técnica, condições de trabalho e reconhecimento da área dentro da estrutura previdenciária. Ao mesmo tempo, novas demandas passaram a exigir respostas das equipes.
Avaliação biopsicossocial da pessoa com deficiência, estudos sociais relacionados à pensão por morte e à aposentadoria por incapacidade permanente, educação previdenciária, preparação para a aposentadoria, pós-aposentadoria e acompanhamento de aposentados e pensionistas estão entre os temas presentes nas discussões do fórum. Atualmente, a avaliação biopsicossocial aparece como uma das questões que mais mobilizam os profissionais.
E foi justamente nesse campo que a troca entre diferentes RPPS mostrou, na prática, o que uma rede profissional pode produzir.
À medida que os institutos começaram a estruturar a avaliação biopsicossocial para aposentadoria da pessoa com deficiência, surgiram dúvidas sobre a participação do Serviço Social, a atuação das equipes multiprofissionais, os instrumentos utilizados e a própria compreensão da deficiência para além de uma perspectiva exclusivamente biomédica.
Discussões promovidas pelo fórum, inclusive durante congressos da ABIPEM, APEPREM e ANEPREM, colocaram profissionais em contato com diferentes experiências e formas de organizar esses processos.
“Isso oferece referências importantes tanto para quem está iniciando essa atuação quanto para quem já possui processos implantados e busca aperfeiçoá-los”, destacam as integrantes.
A ressalva é importante: compartilhar não significa copiar.
“Não se trata de reproduzir modelos, mas de conhecer experiências que possam inspirar soluções adequadas à realidade de cada RPPS.”
A mesma dinâmica já ocorre em programas de preparação para aposentadoria, educação previdenciária, estudos sociais e acompanhamento de aposentados e pensionistas. Uma experiência desenvolvida em determinado instituto passa a circular e pode oferecer caminhos para profissionais que enfrentam questões semelhantes em outras partes do país.
Da troca à construção de referências
Se o fórum nasceu, em parte, da escassez de referências específicas para a atuação do Serviço Social nos RPPS, esse também se tornou um dos desafios que o grupo pretende enfrentar.
Carla, Dáphane e Sueli ressaltam que a profissão possui competências e atribuições definidas pela Lei nº 8.662/1993 e uma longa trajetória na Previdência Social. Ainda assim, consideram necessário avançar na produção de referências voltadas especificamente à realidade dos Regimes Próprios e ampliar o reconhecimento institucional da contribuição do Serviço Social.
“É importante sistematizar experiências, produzir conhecimento e desenvolver referências que auxiliem as(os) profissionais a fundamentar sua atuação, preservar a autonomia técnica e qualificar o diálogo com gestores, equipes jurídicas, médicas e demais áreas dos institutos”, afirmam.
Nesse movimento, o FASRPPS vem estabelecendo interlocução com o conjunto CFESS/CRESS, entidades dos RPPS e espaços acadêmicos. Entre as iniciativas em andamento está a elaboração de uma nota orientativa sobre a atuação do Serviço Social nos Regimes Próprios.
A rede tem ainda uma característica que ganha significado especial em uma revista dedicada às mulheres dos RPPS.
O Serviço Social é historicamente uma profissão de presença feminina expressiva. Segundo o levantamento Perfil de Assistentes Sociais no Brasil: Formação, Condições de Trabalho e Exercício Profissional, publicado pelo Conselho Federal de Serviço Social (CFESS) em 2022, mais de 92% da categoria é composta por mulheres. No FASRPPS, levantamento realizado entre outubro de 2025 e maio de 2026 chegou a uma proporção semelhante: entre os 51 integrantes que responderam, 45 eram mulheres, cerca de 88%.
“O fórum reúne mulheres que ocupam espaços técnicos, de gestão, de avaliação, de planejamento, de educação previdenciária e de defesa de direitos dentro dos RPPS e que, ao se aproximarem, transformam experiências muitas vezes vividas de maneira isolada em conhecimento coletivo”, dizem.
Talvez essa seja também a melhor síntese do caminho percorrido desde aquele primeiro grupo criado em 2019.
O que começou com profissionais procurando descobrir como outras colegas trabalhavam ganhou alcance nacional. As dúvidas não desapareceram — nem era esse o objetivo. Agora, porém, elas podem circular, encontrar outras experiências e gerar novas discussões.
Nas palavras das integrantes do FASRPPS, são profissionais de diferentes lugares e trajetórias “compartilhando saberes, reconhecendo desafios comuns e construindo juntas novas possibilidades para a atuação profissional”.
E uma dúvida que antes poderia permanecer restrita a uma sala, a uma equipe ou a um instituto passa a ter 88 profissionais com quem começar uma conversa.







